sábado, 4 de novembro de 2017

ANDANÇAS com...Luz del Fuego e Ricardo Sá




por Margô Dalla e Júlia Abreu de Souza

Entrevista com Ricardo Sá, diretor do curta metragem Divina Luz sobre Dora Vivacqua, aliás, Luz del Fuego, lendária dançarina naturalista dos anos 50 que, neste ano de 2017, completaria 100 anos.
Local: Teatro Munganga em Amsterdã, onde houve a apresentação do filme e da exposição sobre a atriz.
Margô, Ricardo e Júlia


-Como é que fez para chegar até aqui? São apenas
5minutos de suas andanças que a gente quer.
Foi através do convite da Margô Dalla para fazer a 
exposição em Amsterdã e mostrar meu filme assistido em 
Vitória; conseguimos algum apoio do governo do Estado do 
Espírito Santo e de um pessoal de Paris. Somos todos 
capixabas! Luz del Fuego, Margô e eu!
 
-E a Luz de Fuego, como foi parar na sua vida tantas 
gerações depois?

Uma amiga falou de um livro sobre ela, contou que Luz del 
Fuego faria 100 anos agora e isso despertou a curiosidade, 
deu vontade de comemorar o centenário desta capixaba que
ganhou o mundo. Tem um filme de 1982, uma ficção que 
conta a história, mas não é nada do que ela foi nem o que 
viveu. Eu comungo dos seus ideais sobre a preservação do
ambiente, do amor pela natureza e me sensibilizei com a
luta para valer o seu discurso.

-Ela usou a nudez ...
Para chamar atenção de várias causas, sem dúvida.
Apareceu na mídia em 1944 dançando com cobras, já tinha 
mais de 30 anos, uma dançarina “idosa” na época. Foi uma 
enorme sensação, dançou em circos, ganhou enorme 
notoriedade, atuou em teatros de revista e também nos 
espaços tradicionais do Rio. Foi a vedete mais famosa do 
Brasil, tinha um público fiel. 
 
-E como foi vista pela imprensa da época? 

Os jornais a davam como louca, foi presa algumas vezes,
caçoavam. Não fizeram justiça ao que ela queria 
representar. Isso comprometeu a sua trajetória.

- E aí?
No meio da fama total, ela se cansou das críticas e se 
refugiou numa ilha na Baia de Guanabara, concessão da
marinha do Brasil, para se dedicar ao naturismo, na época 
conhecido como naturalismo. Foi a primeira pessoa na 
América Latina a praticar isso. Fundou o clube naturalista 
brasileiro que fazia parte da Confederação Naturalista
Europeia com sede na Alemanha. 
 
- A ilha do Sol era visitada?
Sim, havia várias atividades ligadas ao naturismo. O clube
tinha estatutos, regras rígidas, não era de forma alguma um
espaço para libertinagem como a mídia gostava de enfatizar.
Eu quis lhe dar um pouco de justiça, de reconhecimento 
divulgando seu pensamento libertário. Só isso.
-Hoje você está aqui, Ricardo. Amanhã?
Amanhã vou para Paris, depois para a Suécia, Bruxelas, 
 EUA, mostrar o filme em festivais. 
 
-E o próximo projeto?
Sempre refletindo o Brasil, pretendo fazer um documentário 
sobre o Rio Doce, sobre os índios Botocudos. O desastre, a
lama.

-----------------------------------------------------------
Rita Lee com  Cassia Eller Luz del Fuego 

Eu hoje represento a loucura
Mais o que você quiser
Tudo que você vê sair da boca
De uma grande mulher
Porém louca!
Eu hoje represento o segredo
Enrolado no papel
Como luz del fuego
Não tinha medo
Ela também foi pro céu, cedo!
Eu hoje represento uma fruta
Pode ser até maçã
Não, não é pecado,
Só um convite
Venha me ver amanhã
Mesmo!
Amanhã! amanhã! amanhã!
Eu hoje represento o folclore
Enrustido no metrô
Da grande cidade que está com pressa
De saber onde eu vou
Sem essa!
Eu hoje…



quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Utopia(s)

por Júlia Abreu de Souza e Margô Dalla-Schutte 

Entrevista com Ana Carvalho, portuguesa, casada com Harrie Lemmens tradutor de literatura de língua portuguesa, autor do livro fotografado por Ana, Deus é brasileiro ex tradutora da União Européia em Bruxelas. Fala sete línguas. 
Foto Harrie Lemmens

O poeta e escritor Zuca Sardan, no prefácio de “Deus é Brasileiro” de Harrie Lemmens, compara suas fotos com obras de pintores famosos: “fotos de um concretismo geométrico flagrado nas vistas e cenas cotidianas; de uma maneira inexplicável, ela transforma a realidade com…a própria realidade clicada em flagrante. Manifestação Rodchenko, Kasimir Malenkof ou…num flagrante de manifestação Dali, tal um quadro seu invisível, inserido dentro do quadro visível. Assim, por exemplo, a súbita aparição de Voltaire, não pintado, mas que surge no quadro pintado, um harém em Marrakech. Assim Ana faz aparecer um camelo num muro contra o qual há roupas no varal. E uma torcida em delírio, no perfil de sombras de casas. E há a Ana Fellini, que saca imprevistos significados em cenas e vistas aparentemente normais.
Foto Ana Carvalho
"Tarde ensolarada em Amsterdã. A conversa flui leve e espontânea, com a Ana nos transportando para os diversos mundos em que viveu."
Foto Margô Dalla
Vamos começar pelo começo... Bem, aos 23 anos saí da minha cidade, o Porto e nunca mais voltei a morar lá. Em ordem cronológica, meu percurso foi: Porto, Leipzig, Berlim, Lisboa, Nijmegen(Holanda), Bruxelas, Almere (Holanda). Saí de Portugal em 1975- num momento de euforia revolucionária e em que se falava muito de utopias. Nunca pertenci a um partido político mas participava de movimentos sindicalistas e do Movimento Democrático das Mulheres.
Depois do 25 de abril, Portugal tinha associações de intercâmbio com vários países socialistas e eu ganhei uma bolsa para estudar em Leipzig. Saí, portanto, quando todo o mundo queria ficar.

Então Leipzig foi a descoberta do mundo? 

Foi. Eu queria viver enfim uma vida exclusivamente de estudante. E também queria conhecer o socialismo por dentro. Achava que sem a preocupação material haveria uma grande abertura para o desenvolvimento intelectual e humano. Para uma espécie de paraíso. Minha utopia.
Foto Ana Carvalho
Utopias existem...? 

No início, sim....Leipzig tinha um ambiente extremamente rico com estudantes de vários países, muitos da América do Sul, foi lá que aprendi espanhol. Convivia com os colegas estrangeiros, tínhamos pouco contato com alemães, não se encorajava isso. Levávamos a vida despreocupada de estudante, festas, discussões, reuniões literárias, estudos. Um mundo à parte.

Quanto tempo viveu a sua utopia?

Quando fui para Berlim é que caí na realidade do dia a dia. Não havia paraíso. Os estrangeiros não corriam riscos, mas já alguns alemães, principalmente os mais ligados ao Partido, não podiam ter contato conosco. Morávamos, eu e o Harrie, que conheci lá na agência de tradução onde trabalhávamos os dois, num bloco com um corredor só para estrangeiros. Nos outros andares os apartamentos eram habitados por gente da polícia e do exército e havia um porteiro que escutava tudo o que se passava. O meu filho nascido lá não ia brincar em casa das outras crianças da escolinha porque eram, na maioria, filhos de funcionários do Partido. Na universidade onde eu dava aulas sentia que os colegas, com algumas excepções, evitavam o contato fora das aulas. Via-se que tinham recebido instruções nesse sentido. Um problema fundamental é que não podiam sair para o Ocidente e em Berlim isso era mais evidente do que nas outras cidades. Era “o lado de lá do muro”. Eu ia de vez em quando a Berlim ocidental, mas evitava falar disso com os meus colegas da universidade para não causar mal-estar, pois muitos deles tinham família lá que não podiam visitar. Vivia numa autocensura. Apesar dos benefícios de ordem econômica e social, era um sistema perverso. Desiludi-me. Em 1985 saí da Alemanha e mudei-me para Lisboa.
Foto Ana Carvalho
Já fotograva? 

Sim, mas muito pouco e sem pretensões. Fiz um curso rápido de fotografia, mas me interessava mais o processo de revelação. Adorei a câmara escura, a mágica do aparecimento da foto. Só mais tarde comecei a fotografar como agora, com uma preocupação estética. Custei um pouco a me acostumar à fotografia digital, mas agora não quero outra coisa.

Você faz um pouco de pop arte, de grafismo, cubismo, construtivismo, não? 

As vezes, digo que, mais que fotógrafa, sou uma colecionadora de imagens. Vou andando, olho, paro, capto o momento. Não sou tanto fotógrafa de pessoas, apenas se estão no cenário certo. Prefiro fotografar casas, portas, janelas, paredes, o detalhe em geral, formas geométricas. Tudo tem sua história por trás mas tudo fica em aberto. Só depois quando, por exemplo, para compor uma exposição vou aos meus arquivos e seleciono as fotos, surge um tema ou um título.
Foto Ana Carvalho
E as fotos que fez durante a viagem com Harrie ao Brasil para “Deus é brasileiro”, vocês tinham um plano, combinaram o trajeto? 

Não procuro, encontro- ah, essa é de Picasso rs rs. Não combinamos nada. Ia registrando as imagens que mais me impressionavam ou surpreendiam. O Brasil foi uma descoberta para mim. Tinha os olhos bem abertos e estava mais receptiva do que nunca. Com a minha exposição O Mundo de Lobo Antunes, por exemplo, fui em busca de fotos com o ambiente que eu pressinto nas suas histórias. Ele próprio se surpreendeu, conforme disse, com os diversos mundos dele revelados por mim. Uma ficção fotográfica, sem dúvida.
Foto Ana Carvalho

Livros de Harrie Lemmens em português e holandês com fotos de Ana Carvalho
Gosto da parte gráfica, de formas, geometria, linhas, possibilidade de combinar cores, de soltar-me, manipular dando outra dimensão, gosto de experimentar. Grupos de pessoas na rua, por exemplo, formam para mim uma composição, uma coreografia, o lugar onde estão colocadas faz o enquadramento. Quando vejo um filme vejo logo o enquadramento. Fotografia, alguém disse, é só uma técnica, o que faz a arte é o fotógrafo. Parece óbvio, não? No cinema gosto muito do filme noir, do contraste entre luz e sombra, tipo O Terceiro Homem, de Hitchkok, e também de Wim Wenders, Visconti, coreógrafos da imagem.
Foto Ana Carvalho
Influências e afinidades… 

A minha maior influência foi a pintura. Digo que sou uma pintora fracassada, pois não tenho paciência, gosto de resultados imediatos. Caravaggio: o impacto do vermelho. Entro em uma igreja em Roma, um altar às escuras; um turista coloca uma moeda, a luz acende, o vermelho solta-se do quadro, uma visão, um deslumbramento. Momento decisivo. Cartier Bresson é dos meus favoritos. Tenho mais afinidades com fotógrafos dos anos cinquenta, sessenta. No Brasil, aprecio Geraldo de Barros, Gaspar Gasparian, Thomas Farkas.
Foto Ana Carvalho
E com a revista Zuca você está de volta à literatura?

É projeto nosso- meu e do Harrie- uma revista digital literária que divulga a literatura e poesia de língua portuguesa na Bélgica e na Holanda. Muito gráfica, com minhas fotos. Temos o projeto Desassossego do livro de Fernando Pessoa traduzido por Harrie. Cada fragmento com uma foto minha. Para as frases de Pessoa, que têm uma linguagem bastante abstrata, procuro algo sugestivo. E, em geral, encontro logo o que quero. E assim cá estou eu de novo, ligada à literatura. Zuca vem de Zuca Sardan, pseudônimo de um poeta, desenhista, ex-diplomata brasileiro, Carlos Saldanha, que também serviu na Holanda e agora mora em Hamburgo com sua mulher alemã. É o nosso patrono, a nossa inspiração.
Foto Ana Carvalho
Próximos projetos? 

Bem, como já disse antes, saí de Portugal à procura da utopia. Esta não se realizou, mas o projeto “Utopia(s)”, em colaboração com o escritor Gonçalo Tavares, também muito conhecido no Brasil, já aconteceu. Foi em Portugal, no festival literário de Cascais (FIC). Também fui convidada para fazer de 12 a 16 de outubro uma exposição em Florianópolis no FLIC onde o Harrie vai apresentar o seu livro. Chama-se “Brasileiros” e nela entram como personagens várias pessoas que fotografei nas nossas três viagens pelo Brasil. Tudo partiu de um recente encontro no festival literário Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim (perto do Porto) onde sentei ao lado da catarinense Lelia Nunes, uma pessoa incrível, extremamente acessível, ligada à cultura açoriana, membro da Academia de Letras local. Ela nem sequer chegou a conhecer o Harrie - eu estava sozinha no Festival. Conversamos, enviei minhas fotos, o livro de Harrie, ela gostou, mantivemos correspondência e agora em outubro vamos conhecer Florianópolis. Coisas da vida... é, voltamos ao Brasil, onde temos muitos amigos. Ficamos tempos sem nos ver, mas há uma reaproximação a cada encontro.
Foto Ana Carvalho

Júlia, Ana e Margô em Amsterdã


domingo, 12 de junho de 2016

Ah, o amor?



Sobre o Amor parece que tudo já foi dito e redito, falado, escrito, cantado, recitado.No entanto, ainda é um assunto contraditório e inexaurível. Neste blog um tanto lúdico, um tanto ingênuo, nossa única pretensão é a de rever algumas citações de gente famosa- e menos famosa- sobre o tema. Finalizamos com uma explicação- bem colocada e plausível- dos motivos por que acaba o amor. O arremate, ou post- scriptum, é o icônico poema de Luis Vaz de Camões com uma bela tradução inglesa para, quem quiser, se regalar novamente e, é claro, um poema de Pablo Neruda. 

Convidamos todos para entrar na seção de comentários e acrescentar mais pensamentos, poesias e ditos sobre  tema.



Começamos com o (dito) mais incondicional dos amores tal como "dectectou" Agatha Christie:

O amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. Ele não obedece lei ou piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho.

Tete de Femme-Pablo Picasso-1930

Há uma espécie única de amor, com milhares de cópias diferentes.La Rochefoucauld. 

Amor repelido é amor multiplicado. Machado de Assis

Não podendo suportar o amor, a Igreja quis ao menos desinfetá-lo, e então fez o casamento. Charles Baudelaire
Girl Before a Mirror-Pablo Picasso-1932

Se quer ser amado, ame. Sêneca  
  
Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo. Mário Quintana
  
A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande. Roger Bussy-Rabutin
Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo? Fernando Pessoa

Só há um tipo de amor que dura, o não correspondido. Woody Allen 

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.Friedrich Nietzsche 
 

Nu au plateau de sculpteur-Pablo Picasso-1932
Para viver um grande amor, é preciso muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso. Vinicius de Moraes

Era um amor diferente, quase assim feito uma segurança de sabê-lo sempre ali. Caio Fernando Abreu

Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval. Toquinho e Vinícius de Moraes
 
 

O amor é um enorme exagero de diferença que estabelece entre uma pessoa e as restantes. Bernard Shaw

É um amor pobre aquele que se pode medir. Skakespeare 

Em outros tempos houve amores plat˜ônicos, hoje há matrimônios platônicos. Bernard Shaw

Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor.Shakespeare
O amor é um não sei o que, que surge de não sei de onde e acaba não sei como. Madeleine Scudéry

Le Rêve-Pablo Picasso-1932
Nunca tive um primeiro amor. Comecei com o segundo. Turgenev


Pena é não haver um manicômio para corações, que para cabeças há muitos.Florbela Espanca

...o próprio amor, por mais que tente, não consegue preencher completamente a carência constitutiva que é chamado a consertar. Laura Kipnis “Contra o Amor-uma polêmica". 

E finalizamos com:


Por que acaba o amor? 
 

por Vaneska de Moraes

Sempre segui o conselho de Drummond sobre a palavra amor: não facilito, não jogo no espaço, não emprego sem razão, não brinco, não espalho aos quatro ventos. Se melhor discípula fosse, sequer a pronunciaria. 


Fato é que morro de medo de tentar falar de amor. A sensação é de que quaisquer palavras que use o tornarão menor e vulgar. Muito mais por incompetência poética e filosófica, não ouso defini-lo. 

Minha pequena arrogância aqui será indicar mal traçadas hipóteses sobre o porquê de seu fim.

Os adeptos de sua faceta romântica dirão que ele não acaba. Se acaba não era amor. Os mais apegados dirão que ele se transforma. Eu acredito que o amor acaba. Repleto de si ele não se contenta com ser nada além de amor.

O amor acaba porque gasta. Porque usamos sem moderação. Sugamos tudo. Roemos até o caroço. Lambuzamos a cara como se amanhã não houvesse. O pobre do amor fica sequinho e cai do pé. 

O amor acaba soterrado na casa própria. Atropelado pelo carro novo sempre mais novo. Televisões de duas mil polegadas, adegas, móveis planejados, taças de cristal, mil bibelôs, viagens protocolares. 

O amor acaba sufocado pelas coisas.O amor acaba porque um entra quando o outro sai. Um quer quando o outro evita. Um aspira enquanto o outro exala. O amor acaba quando fica sozinho no escuro. O amor acaba no desencontro.O amor acaba nas garrafas de água vazia. No lixo por tirar. Na toalha não pendurada.  Nas roupas jogadas no chão. Nas coisas fora de lugar. 

O amor se acaba na confusão e na bagunça que é sempre do outro.O amor morre de falta. Falta de educação, de compreensão, de paciência, de compaixão, de ternura. O amor morre de falta de cafuné.

O amor acaba sem ser percebido. Na desatenção nossa de cada dia. Na falta de tempo. No deixa pra lá. Nas desnecessidades subentendidas e mal concluídas. O amor acaba no silêncio.O amor acaba porque a gente muda. Porque ficamos de saco cheio. Porque enjoamos. Porque queremos um amor diferente. Um amor novinho em folha, que nos faça lembrar do velho amor quando ardia. 

O amor morre de tédio. Esse amor que tenho medo de vulgarizar acaba por muitos motivos. Paradoxalmente todos eles ordinários.

“...O amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.”. Carlos não vai se matar por isso. Nem eu.

*Texto publicado originalmente em http://rodadeescrevinhadores.blogspot.nl/ – 23 de maio de 2016 


Camões
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que doi, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Love is a fire that burns unseen,
a wound that aches yet isn’t felt,
an always discontent contentment,
a pain that rages without hurting,

a longing for nothing but to long,
a loneliness in the midst of people,
a never feeling pleased when pleased,
a passion that gains when lost in thought.

It’s being enslaved of your own free will;
it’s counting your defeat a victory;
it’s staying loyal to your killer.

But if it’s so self-contradictory,
how can Love, when Love chooses,
bring human hearts into sympathy?

© 1598, Luís Vaz de Camões
 
From: Rimas
Publisher: Almedina, Coímbra, 1994


THE END

*Para ilustrar nosso post sobre o amor, escolhemos algumas obras do pintor espanhol Pablo Picasso, a ópera "Carmen - Habanera com Anna Caterina Antonacci/The Royal Opera" e a música "Escravo da Alegria" de Vinícius de Moraes e Toquinho.

Embora grandes obras de arte possam ser criadas em momentos de depressão e tristeza dos seus criadores, também o amor e a paixão podem inspirar grandes feitos. Pablo Picasso foi um homem de diversos amores e paixões-, conta-se que mudava de companheira tão frequentemente quanto mudava de estilo artístico já que muitas das suas obras são retratos das mulheres e filhos.



















Ah, o amor?



Sobre o Amor parece que tudo já foi dito e redito, falado, escrito, cantado, recitado.No entanto, ainda é um assunto contraditório e inexaurível. Neste blog um tanto lúdico, um tanto ingênuo, nossa única pretensão é a de rever algumas citações de gente famosa- e menos famosa- sobre o tema. Finalizamos com uma explicação- bem colocada e plausível- dos motivos por que acaba o amor. O arremate, ou post- scriptum, é o icônico poema de Luis Vaz de Camões com uma bela tradução inglesa para, quem quiser, se regalar novamente e é claro um poema de Pablo Neruda. 

Convidamos todos para entrar na seção de comentários e acrescentar mais pensamentos, poesias e ditos sobre  tema.



Começamos com o (dito) mais incondicional dos amores tal como "dectectou" Agatha Christie:

O amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. Ele não obedece lei ou piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho.

Tete de Femme-Pablo Picasso-1930

Há uma espécie única de amor, com milhares de cópias diferentes.La Rochefoucauld. 

Amor repelido é amor multiplicado. Machado de Assis

Não podendo suportar o amor, a Igreja quis ao menos desinfetá-lo, e então fez o casamento. Charles Baudelaire
Girl Before a Mirror-Pablo Picasso-1932

Se quer ser amado, ame. Sêneca  
  
Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo. Mário Quintana
  
A distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande. Roger Bussy-Rabutin
Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo? Fernando Pessoa

Só há um tipo de amor que dura, o não correspondido. Woody Allen 

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.Friedrich Nietzsche 
 

Nu au plateau de sculpteur-Pablo Picasso-1932
Para viver um grande amor, é preciso muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso. Vinicius de Moraes

Era um amor diferente, quase assim feito uma segurança de sabê-lo sempre ali. Caio Fernando Abreu

Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval. Toquinho e Vinícius de Moraes
 
 

O amor é um enorme exagero de diferença que estabelece entre uma pessoa e as restantes. Bernard Shaw

É um amor pobre aquele que se pode medir. Skakespeare 

Em outros tempos houve amores plat˜ônicos, hoje há matrimônios platônicos. Bernard Shaw

Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor.Shakespeare
O amor é um não sei o que, que surge de não sei de onde e acaba não sei como. Madeleine Scudéry

Le Rêve-Pablo Picasso-1932
Nunca tive um primeiro amor. Comecei com o segundo. Turgenev


Pena é não haver um manicômio para corações, que para cabeças há muitos.Florbela Espanca

...o próprio amor, por mais que tente, não consegue preencher completamente a carência constitutiva que é chamado a consertar. Laura Kipnis “Contra o Amor-uma polêmica". 

E finalizamos com:


Por que acaba o amor? 
 

por Vaneska de Moraes

Sempre segui o conselho de Drummond sobre a palavra amor: não facilito, não jogo no espaço, não emprego sem razão, não brinco, não espalho aos quatro ventos. Se melhor discípula fosse, sequer a pronunciaria. 


Fato é que morro de medo de tentar falar de amor. A sensação é de que quaisquer palavras que use o tornarão menor e vulgar. Muito mais por incompetência poética e filosófica, não ouso defini-lo. 

Minha pequena arrogância aqui será indicar mal traçadas hipóteses sobre o porquê de seu fim.

Os adeptos de sua faceta romântica dirão que ele não acaba. Se acaba não era amor. Os mais apegados dirão que ele se transforma. Eu acredito que o amor acaba. Repleto de si ele não se contenta com ser nada além de amor.

O amor acaba porque gasta. Porque usamos sem moderação. Sugamos tudo. Roemos até o caroço. Lambuzamos a cara como se amanhã não houvesse. O pobre do amor fica sequinho e cai do pé. 

O amor acaba soterrado na casa própria. Atropelado pelo carro novo sempre mais novo. Televisões de duas mil polegadas, adegas, móveis planejados, taças de cristal, mil bibelôs, viagens protocolares. 

O amor acaba sufocado pelas coisas.O amor acaba porque um entra quando o outro sai. Um quer quando o outro evita. Um aspira enquanto o outro exala. O amor acaba quando fica sozinho no escuro. O amor acaba no desencontro.O amor acaba nas garrafas de água vazia. No lixo por tirar. Na toalha não pendurada.  Nas roupas jogadas no chão. Nas coisas fora de lugar. 

O amor se acaba na confusão e na bagunça que é sempre do outro.O amor morre de falta. Falta de educação, de compreensão, de paciência, de compaixão, de ternura. O amor morre de falta de cafuné.

O amor acaba sem ser percebido. Na desatenção nossa de cada dia. Na falta de tempo. No deixa pra lá. Nas desnecessidades subentendidas e mal concluídas. O amor acaba no silêncio.O amor acaba porque a gente muda. Porque ficamos de saco cheio. Porque enjoamos. Porque queremos um amor diferente. Um amor novinho em folha, que nos faça lembrar do velho amor quando ardia. 

O amor morre de tédio. Esse amor que tenho medo de vulgarizar acaba por muitos motivos. Paradoxalmente todos eles ordinários.

“...O amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será.”. Carlos não vai se matar por isso. Nem eu.

*Texto publicado originalmente em http://rodadeescrevinhadores.blogspot.nl/ – 23 de maio de 2016 


Camões
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que doi, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Love is a fire that burns unseen,
a wound that aches yet isn’t felt,
an always discontent contentment,
a pain that rages without hurting,

a longing for nothing but to long,
a loneliness in the midst of people,
a never feeling pleased when pleased,
a passion that gains when lost in thought.

It’s being enslaved of your own free will;
it’s counting your defeat a victory;
it’s staying loyal to your killer.

But if it’s so self-contradictory,
how can Love, when Love chooses,
bring human hearts into sympathy?

© 1598, Luís Vaz de Camões
 
From: Rimas
Publisher: Almedina, Coímbra, 1994


THE END

*Para ilustrar nosso post sobre o amor, escolhemos algumas obras do pintor espanhol Pablo Picasso, a ópera "Carmen - Habanera com Anna Caterina Antonacci/The Royal Opera" e a música "Escravo da Alegria" de Vinícius de Moraes e Toquinho.

Embora grandes obras de arte possam ser criadas em momentos de depressão e tristeza dos seus criadores, também o amor e a paixão podem inspirar grandes feitos. Pablo Picasso foi um homem de diversos amores e paixões-, conta-se que mudava de companheira tão frequentemente quanto mudava de estilo artístico já que muitas das suas obras são retratos das mulheres e filhos.