sexta-feira, 27 de maio de 2011

Só o estrangeiro sabe onde lhe dói o passaporte!!!





Essa frase/sentença é do escritor Ivan Lessa-, editor e um dos principais colaboradores de O Pasquim. Lessa é autor de Garotos da Fuzarca (contos,1986), Ivan o Mundo (crônicas,1999) e o Luar e a Rainha (crônicas, 2005), além de outras publicações.

Junto com o cartunista Jaguar, criou o ratinho Sig (de Sigmund Freud), baseado na anedota corrente da época na qual se dizia que se "se Deus criou o Sexo, Freud criara a sacanagem". O ratinho se tornou símbolo de "O Pasquim".
Ivan Lessa também escreveu em 2003, a apresentação para o livro "A sangue frio" (1965), de Truman Capote que em nova edição no ano de 2009, integrou a "Coleção jornalismo literário", junto de outros livros renomados, como "Berlim" de Joseph Roth, e "Hiroshima", de John Hersey.




Adeus!Hello!



Adeus: cinco letras que choram. Hello: cinco letras que sorriem.



Bem que eu tinha notado. Qualquer coisa de diferente nos ares de Londres. Nada a ver com zepelim ou problemas no sistema de esgotos. Depois de algumas décadas da capital britânica mesmo os mais insensíveis percebem essas coisas.
É o que poderia se chamar de "afinação territorial". Quem em Ipanema ou em Jaú, depois de algum tempo de aclimatação, não percebe, quase que por sexto sentido, essa tal de "qualquer coisa de diferente nos ares". Generalizo e pontifico: um homem é 30% a cidade em que vive.
Em Londres estou entre os 20 e 25%.
Foi assim: de repente, numa manhã de primavera do ano passado, saindo do metrô com minha tralha debaixo do braço, notei praticamente com o faro, a pele e uma campainha soando lá no fundo da cabeça, que algo mudara.
Olhei em torno. Não, não havia obras na rua. O tráfego continuava em seu passinho de sempre, as pessoas... Aí foi me dando a luz. As pessoas. Isso, eram as pessoas. Algo não estava certo com as pessoas. Por uma fração de segundo, senti-me no meio de um filme de ficção científica de baixa qualidade.
Teriam extra-terrestres, no meio da noite, tomado conta dos londrinos a que neste tempo todo eu já começava a me acostumar? (Só se pode dizer em perfeita sintonia com Londres depois de 45 anos, não importa a cor de seu passaporte.) Enquanto caminhava ladeirinha acima para o trabalho (contar bobagens para vocês) fiz o que sempre fiz a vida toda: deixei a cabeça para lá, junto com qualquer tentativa de raciocinar, e deixei que o instinto, esse Pelé que bate-bola nos gramados das almas verde-amarelas, tomasse conta de mim.
Antes de chegar ao banco, no alto da rua, onde costumo dar uma paradinha para recuperar o fôlego, dei com a coisa. E quando digo coisa, não me refiro à Coisa (The Thing) daquele filme sci-fi já filmado duas vezes, mas sim a "coisa" que estava acontecendo.
Havia uma enorme ausência de londrinos na cidade. Isso eu depreendera em apenas um quarteirão da zona central da cidade. Foram todos embora sem sequer se despedir de mim. No sentido figurado, claro. Que as intimidades por aqui continuam parcimoniosas. Graças a Deus, ou à sua inexistência, conforme está na moda dizer, achar e proclamar do fundo vermelho dos ônibus de dois andares.
Que fiz eu então nessa situação de dúvida e incerteza? O que todos nós fazemos. Googlei. Não deu outra. Lá estava, logo na primeira página do engenhoso e ubíquo engenho de busca. Entre 1998 e 2007, dois milhões de londrinos deixaram a capital.
O número é o resultado de uma meticulosa pesquisa, como o são todas as pesquisas britânicas, do Bank of Scotland, publicada ainda agora nestes primeiros dias de janeiro. Friso que os números se referem aos que abandonaram Londres por outras partes da Grã-Bretanha. Os britânicos que partiram rumo Espanha, França e Itália, e que agora amargam o euro caro, não constam do estudo. Em 2007, foram 207 mil os britânicos a deixar o país. Um a cada três minutos, me asseguram. Epa, lá foi outro! Com o euro em alta e tudo. A debandada deverá prosseguir.
Fui ao outro lado da moeda, que os escoceses, principalmente os ligados a bancos, têm sempre um outro lado da moeda. Bobeou e mandam três ou quatro outros lados da mesma moeda. Ao que parece, Londres arrecadou (se é esse o verbo) o maior nível de migração internacional nos últimos dez anos: aqui no sudeste do Reino Unido, onde se situa Londres, chegaram, e tudo indica que ficaram e se instalaram, mais de 1 milhão e 800 mil estrangeiros.
Oba, lá está um deles! Good morning! How are you? pergunto e saúdo, nomeando-me a mim próprio embaixador honorário da capital, querendo deixá-los mais à vontade na cidade que, como eu, escolheram para morar e viver. Ou seja, reclamar dos preços, do trânsito, da falta de modos dos outros, da família real, da decadência de tudo e, last but not least, do excesso de estrangeiros à solta.


Ivan Lessa mora em Londres, onde escreve crônicas três vezes por semana para a  BBC Brasil.  
Esta crônica "Adeus!Hello!" foi publicada originalmente na BBC Brasil em 12 de janeiro, 2009. 
A ilustração/foto Ivan Lessa é também da BBC Brasil.


domingo, 8 de maio de 2011

Cozinhando com mamãe!!!


Sempre acordo com saudades da minha casa no Brasil!!! No silêncio, Henk ainda dormindo, lembro de nossos cafés da manhã recheado de delícias; e especialmente hoje, dia das mães, um sentimento de nostalgia me toma ao recordar Camila, minha filha, durante muitos anos me trazendo uma bandeja de café sempre com um bilhetinho amoroso. Saudades da minha Camila e da minha mãe Ruth que também me ensinou os segredos da cozinha. 
Margô

O texto de hoje, de Tatiana Mota, fala sobre as cozinhas brasileiras - sobre as tias, sobre as mães e seus ensinamentos. 
Oferecemos também, o clip do ator Wagner Moura que canta para a mãe.

Enjoy!!!
Júlia&Margô


A vida em outro país me traz várias reflexões sobre o viver aqui e lá. Ao comparar nossos hábitos com o comer dos holandeses percebi a importância cultural da comida na vida do brasileiro. Qualquer ocasião, de uma simples visita a um casamento, a gulodice domina todos os rituais sociais. O alimento se conecta diretamente ao coração e trazemos na memória delícias preparadas pelos pais, avós ou alguém bem querido. 
Assim é para mim. Encontro em minhas reminiscências dezenas de mulheres em uma cozinha de fazenda, preparando pamonha. Eu pequena olhando panelas gigantes e observando o mistério daquele líquido amarelado, que era milho, mas de repente se convertia em minha sobremesa favorita. Conseguia às vezes dar o nó nas sacolas de palha com um barbante. Lembro-me também de ver a vovó preparando biscoito de queijo e seu feijãozinho, o mais saboroso que provei. 
E para minha sorte a outra vozinha também tinha seus quitutes. Seu vatapá era prato famoso, mas gostava mesmo das coxinhas que preparávamos juntas, da paçoca que ela fazia, essa doce, e até do macarrão nissin com molho avermelhado, delicioso só por ser feito por ela. Também não me esqueço das fugas que fazia com minha irmã para provar as pizzas do Seu João em nossa pizzaria. Ele também preparava gemada como uma batedeira, pronta em poucos minutos, depois nos assustava virando o prato de cabeça para baixo. Havia também o bolinho de chuva da Dona Anastácia, e eu vibrava quando ela chegava com aquele prato de bolinhos perfeitamente redondos e açucarados, não é melhor bolinho imaginário do mundo?
Não obstante, quando adulta, ao me deparar com as caçarolas, o encanto havia desaparecido. Sozinha em minha cozinha minúscula, não havia qualquer inspiração. Anos e anos depois, já em São Paulo fui aprender a cozinhar na escola. O chef Carlos Ribeiro ministra cursos fantásticos no Na Cozinha, e a partir dali algo começou a mudar. Mas a lida com a cozinha estava ainda longe da familiaridade para mim, foi pois que feri levemente meu gentil professor com aquela faca enorme de 7 polegadas, e ele somente me revelou o ocorrido ao final do curso, para que eu não desistisse.
Já na Holanda surgiu grande necessidade de trazer novamente aqueles gostinhos que ficaram na terra natal. O primeiro desafio é ter que lidar com a ausência das matérias primas que abundam no Brasil. Fui encontrando aos poucos um item ali, outro aqui, até porque não podemos sempre ir na lojinha de produtos brasileiros para comprar um pacote de polvilho por quase 4 euros. Encontro o leite condensado na seção de produtos importados, apesar de ser do norte da Holanda, de Friesland. A salsicha defumada que se chama rookworst faz as vezes de lingüiça de feijão.


Começou a surgir uma satisfação com o exercício culinário, para mim novo. Aprender a fazer o ponto de brigadeiro, assar um bolinho, fazer pudim, percebi o grande fascínio que essas comidas exercem sobre mim, admirava-me ao preparar os ingredientes e me deslumbrava com a metamorfose da massa. Ao preparar os pratos corriqueiros da nossa cozinha, como o arroz e o feijão, percebi que acumulara várias sugestões das mais queridas figuras. Meu feijão tem o toque de manteiga da Lelê, um monte de alho como o feijãozinho da Adri, um caldo consistente como o da vovó Tina e às vezes umas linguicinhas tais quais as da vó Maria. Preparo aquele cachorro quente com molho saboroso tal qual a tia Binha e uso a receita de tahine com mel e os produtos natureba da tia Dani.
Minha cozinha então fica cheia, quase não consigo me mover com essa gente toda trazendo sua alquimia para o fundo da minha panela, e jamais me sinto só. Esses detalhes que não se encontram em livros tornam a comida de cada um ainda mais única e especial. A vida pode ser mais doce e temperada quando nos abastecemo desse alimento que nutre a alma.
Da maior mestre ainda não falei. Mas ela é sem dúvida a grande referência que tenho para a lida com as colheres de pau. Ela tem dicas para tudo e um jeito só seu de preparar a comida. A torta de banana e o bife bem solado eram customizados para mim e tinham um sabor que ainda reverbera nas minhas papilas degustativas. Havia um algo há mais saindo daquele forno e fogão e não há quem possa repetir as receitas. Na minha humildade de cozinheira iniciante vou tentando aos poucos decifrar a arte da maior chef que já conheci.
Conversamos muito nesses momentos. Ela me avisa quando devo colocar mais sal ou se preciso acrescentar um pouco mais de água, e também me dá idéias do que fazer quando o prato não sai conforme o programado. Algo muito inesperado então acontece. Eu ganho uma confiança que nunca tive enquanto estava ao fogão, e antes de terminar o preparo do alimento já sei que será saboroso.
Acabo cozinhando muito com a minha mãe. Eu aqui, bem longe do Brasil e ela na outra dimensão da vida sopra em brisas suaves o seu conhecimento. Tudo que não tive tempo de dizer-lhe é preenchido pela nossa comunicação secreta. O carinho enorme no preparo dos pratos, pensando nas pessoas queridas do Brasil e nos amados destinatários da comida é sempre uma grande homenagem a ela, uma maneira de agradecer por todos os “gagais” que me fizeram crescer e me transformaram em um ser melhor, e finalmente capaz de dar aos filhotes um gostinho do inesquecível amor de mãe em forma de comida.  Nesses momentos não há tristeza, não há nada mais que uma saudade muito doce, cheia daquele aroma de baunilha que perfuma o forno.